A Lenda do Convento de Mafra

Atualizado: Fev 6



… Pois conta a História de Portugal que el-rei D. João V, nos seus primeiros tempos de casado, vivia em profunda e estranha melancolia. Certo dia, a rainha sua esposa foi encontrá-lo na varanda larga do palácio, embrenhado em pensamentos que lhe ensombravam o rosto. E perguntou, a meia voz: — Senhor, que mágoa sofreis em silêncio? Surpreendido, el-rei tentou disfarçar. — Negócios de Estado, Senhora... Mas logo ela contrapôs, num meio sorriso de humildade: — Não me deveis enganar... Lembrai-vos de que sou vossa esposa... El-rei suspirou. E retorquiu com voz mal segura: — E não vos engano. Disse-vos e repito-vos: são negócios de Estado. Houve um breve silêncio. Depois, a rainha insistiu: — Perdoai, Senhor... Mas a névoa que vejo no vosso olhar faz-me crer que não se trata de política... D. João V olhou-a e reconheceu, esboçando um leve sorriso: — Sois perspicaz. Podeis ler sempre assim no meu íntimo? Foi a vez do semblante da rainha se abrir num sorriso. — Penso que sim. Porque, afinal, Senhor, os vossos cuidados devem ser gémeos dos meus. — Que cuidais então que seja o que me entristece? A pergunta saiu num grito de alma. E a resposta não foi menos sincera: — Digo-vos, Senhor, que é a falta de um filho que vos traz abatido e taciturno. E tendes razão para isso. Calou-se a rainha por instantes a ganhar coragem para continuar. — Sim, tendes razão... Talvez a mim me caiba a culpa maior de tudo isso! Mas o rei logo protestou: — Não!... Pelo amor de Deus, não penseis tal!... A culpa é minha e só minha! Ergueu os olhos ao céu, numa interrogação e numa súplica. — Não sei porque razão Deus me castiga assim!... Um rei sem filhos é uma árvore sem frutos! Ambos se entreolharam em silêncio. Foi ela a primeira a falar. — Que havemos nós de fazer, Real Senhor? D. João V abanou a cabeça, lentamente. Abatido. Desanimado. — Bem me podeis perguntar, Senhora, que não vos sei responder. Só Deus nos poderá indicar o caminho! E a rainha tornou: — Pois vou pedir a Deus, mais uma vez, que nos conceda tal mercê! A rainha foi recolher-se na capela do paço, a rezar fervorosamente as suas orações. Todas com a mesma intenção. Todas elas rogando o mesmo favor. E foi então — diz a lenda — que ela escutou junto de si uma voz velada e lenta, dizendo: — Se vós quiserdes, Senhora, el-rei poderá ter um filho. Emocionada, trémula, a rainha murmurou: — Meu Deus, será possível? Será a Vossa própria Voz que eu escuto, meu Deus?... E logo alguém rectificou, num tom de humilde reverência: — Não é a voz de Deus, não!... É somente a voz de um dos vossos fiéis servidores. A rainha voltou-se, surpresa. — Ah, sois vós Frei António!... Imaginai que cheguei a supor tratar-se de um milagre... que Deus descia até mim para me aconselhar... O frade inclinou-se suavemente. E suavemente ajuntou: — Senhora, às vezes Deus fala pela boca dos seus sacerdotes. A rainha olhou o frade. Intrigada. Confusa. — Que pretendeis dizer com isso? Frei António de São José limitou-se a sorrir, antes de responder: — O mesmo que vos disse há pouco. E acentuando bem as palavras, repetiu: — Se vós quiserdes, el-rei poderá ter um filho. A rainha ergueu-se num impulso. — Mas eu quero, eu quero, com todas as veras do meu coração! E acrescentou baixinho, como quem segreda, sufocada pela ansiedade: — Que devo fazer? Dizei-me e assim farei! No mesmo tom de voz, o frade esclareceu pausadamente. — É bem simples, Senhora... Basta que el-rei faça a Nosso Senhor Jesus Cristo a promessa de construir um convento em Mafra, se Deus lhe fizer mercê de ter um filho varão. E o frade concluiu, com voz segura e profética: — E estou certo de que o fará! A rainha não escondeu a sua perplexidade. — Só isso, Frei António de São José? Só isso, nada mais? — Só isso e nada mais, Real Senhora. Ela abriu-se num sorriso. E declarou com decisão: — Pois hoje mesmo direi a el-rei que faça essa promessa! De facto, conforme diz a lenda, nessa mesma noite a rainha falou com D. João V acerca de tão extraordinário caso. Ele não hesitou nem ao de leve. — Oh, Senhora, estou pronto a fazer a promessa... Construirei em Mafra o mais belo e sumptuoso convento de Portugal! E erguendo-se, e abrindo os braços, como que a desenhar mais largamente o seu próprio desejo, acentuou: — Um convento que, em grandiosidade, nada fique a dever aos conventos de Roma! Quase chorando de alegria, a rainha agarrou-lhe as mãos. — Que alegria me dais, Real Senhor!... Sinto-me reanimada com a vossa promessa e com as palavras de Frei António de São José!... Que Deus vos oiça!... Volto a encher-me de esperança! Enlaçando-a meigamente, el-rei confidenciou: — Amanhã mesmo, ao romper da alva, falarei a Frei António de S. José. Conheço-o bem. É um dos mais inteligentes frades da Arrábida. Não me custa a acreditar que a sua fé consiga um milagre! Na realidade, mal surgiram os primeiros alvores da manhã, já el-rei D. João V se encontrava a pé, depois de uma noite agitada pelos mais complexos pensamentos. Logo mandou chamar Frei António de S. José, que não se fez esperar. — Vossa Majestade dá licença? — Entrai, entrai, Frei António! E convidando-o a sentar-se, D. João V entrou imediatamente no assunto. — Sua Majestade a rainha contou-me o que vós lhe dissestes... E eu estou pronto a fazer a promessa! O rosto de Frei António não escondeu a satisfação que lhe inundava a alma. — Decerto muita alegria dais a Deus neste momento, Real Senhor! D. João também não escondeu os obstáculos que levantava a promessa feita. — Sei que vou contra a vontade de muitos, pois deveis recordar que a ideia de construir um convento em Mafra já foi posta de parte várias vezes, em virtude de o tesouro estar demasiadamente onerado com outros conventos... E erguendo a voz um pouco: — Lembrais-vos do último despacho do desembargador do Paço, Frei António? O frade concordou: — Lembro-me, sim, Real Senhor, e por isso mesmo mais me alegro… Inclinou-se para o monarca, e a sua voz ganhou mais força, maior convicção. — Ides contra a vontade de muitos... mas ides a favor da vontade de Deus! D João V também se ergueu, dando por finda a breve conferência. — Que assim seja, Frei António. Hoje mesmo deveis acompanhar-nos, a mim e à rainha, até Mafra, para escolhermos o terreno destinado ao convento. E nesse mesmo dia, confor-me reza a tradição, em Mafra, olhando o céu, el-rei D. João V, tendo a rainha e Frei António como testemunhas, fez a sua promessa sagrada: — Senhor meu Deus Todo Poderoso!... A Vós suplico a mercê de fazerdes com que me nasça um filho, que possa continuar a dinastia de Portugal! E eu Vos prometo, Senhor meu Deus, solenemente, que no mesmo dia em que meu filho nascer aqui em Mafra se iniciará a construção do mais grandioso convento de Portugal! Frei António de São José limitou-se a rematar com fervor. — Ámen! Desde esse dia, o rei e a rainha de Portugal viveram em constante sobressalto. Até que, certa manhã, a rainha deu a D. João a grande notícia. — Senhor… Senhor meu rei e meu esposo… Sinto já o nosso filho a palpitar dentro de mim! No auge da felicidade, D João V ergueu os olhos ao céu e exclamou: — Louvado seja Deus! Nove meses depois, bem contados, na expressão pitoresca do povo, a rainha de Portugal teve a sua hora pequenina. E nessa hora nasceu um principezinho que encheu de encantamento o coração de seu pai. — Deus seja louvado!... Graças, graças, Senhor! Já tenho um filho!... E obrigado tambem a vós, Frei António de S. José! Humilde e simples, o frade replicou: — Nada tendes que me agradecer, Senhor. Apenas revigorei a vossa fé perdida. Deus, sim, Deus é que merece todas as vossas graças, pois que vos escutou. E, sorrindo, ajuntou intencionalmente: — Agora, resta-vos cumprir a promessa que fizestes... D. João V sorriu também. — Assim farei, Frei António!... E mais vos digo. Já combinei com a rainha: em sinal de gratidão por vós, Frei António de S. José, o príncipe de Portugal receberá o nome de José! Cumprindo escrupulosamente a sua promessa — tal com nos garantem a História e a Lenda, entrelaçadas na tradição do povo — nesse mesmo dia, enquanto Portugal inteiro festejava ruidosamente o nascimento do herdeiro do trono, também em Mafra, por ordem de el-rei, se iniciavam com entusiasmo as obras para a construção do grandioso convento.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 67-71

Place of collectionMafra, MAFRA, LISBOA

Fonte:

http://www.lendarium.org/narrative/lenda-da-fundacao-do-convento-de-mafra/?tag=267


205 visualizações

Acreditar é tornar possível

Os conteúdos do 1717 Acreditar são da responsabilidade de cada um dos seus autores.

1717acreditar@gmail.com

+351 917 624 090

Mafra - Portugal

  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon